Arquivo Poético

Miséria



Miséria é miséria em qualquer canto
Riquezas são diferentes
Índio, mulato, preto, branco
Miséria é miséria em qualquer canto
Riquezas são diferentes
Miséria é miséria em qualquer canto
Filhos, amigos, amantes, parentes
Riquezas são diferentes
Ninguém sabe falar esperanto
Miséria é miséria em qualquer canto
Todos sabem usar os dentes
Riquezas são diferentes


Miséria é miséria em qualquer canto
Riquezas são diferentes
Miséria é miséria em qualquer canto
Fracos, doentes, aflitos, carentes
Riquezas são diferentes
O Sol não causa mais espanto
Miséria é miséria em qualquer canto
Cores, raças, castas, crenças
Riquezas são diferenças
A morte não causa mais espanto
O Sol não causa mais espanto
A morte não causa mais espanto
O Sol não causa mais espanto
Miséria é miséria em qualquer canto
Riquezas são diferentes
Cores, raças, castas, crenças
Riquezas são diferenças
Índio, mulato, preto, branco
Filhos, amigos, amantes, parentes
Fracos, doentes, aflitos, carentes
Cores, raças, castas, crenças
Em qualquer canto miséria
Riquezas são miséria
Em qualquer canto miséria
Composição: Paulo Miklos / Sergio Britto / Arnaldo Antunes





Carcará - João do Vale/José Cândido

Carcará
Lá no sertão
É um bicho que avoa que nem avião
É um pássaro malvado
Tem o bico volteado que nem gavião
Carcará
Quando vê roça queimada
Sai voando, cantando,
Carcará
Vai fazer sua caçada
Carcará come inté cobra queimada
Quando chega o tempo da invernada
O sertão não tem mais roça queimada
Carcará mesmo assim num passa fome
Os burrego que nasce na baixada
Carcará
Pega, mata e come
Carcará
Num vai morrer de fome
Carcará
Mais coragem do que home
Carcará
Pega, mata e come
Carcará é malvado, é valentão
É a águia de lá do meu sertão
Os burrego novinho num pode andá
Ele puxa o umbigo inté matá
Carcará
Pega, mata e come
Carcará
Num vai morrer de fome
Carcará
Mais coragem do que home
Carcará

Ideologia-Cazuza


Meu partido
É um coração partido
E as ilusões
Estão todas perdidas
Os meus sonhos
Foram todos vendidos
Tão barato
Que eu nem acredito
Ah! eu nem acredito...
Que aquele garoto
Que ia mudar o mundo
Mudar o mundo
Frequenta agora
As festas do "Grand Monde"...
Meus heróis
Morreram de overdose
Meus inimigos
Estão no poder
Ideologia!
Eu quero uma pra viver
Ideologia!
Eu quero uma pra viver...
O meu prazer
Agora é risco de vida
Meu sex and drugs
Não tem nenhum rock 'n' roll
Eu vou pagar
A conta do analista
Pra nunca mais
Ter que saber
Quem eu sou
Ah! saber quem eu sou..
Pois aquele garoto
Que ia mudar o mundo
Mudar o mundo
Agora assiste a tudo
Em cima do muro
Em cima do muro...
Meus heróis
Morreram de overdose
Meus inimigos
Estão no poder
Ideologia!
Eu quero uma pra viver
Ideologia!
Pra viver...
Pois aquele garoto
Que ia mudar o mundo
Mudar o mundo
Agora assiste a tudo
Em cima do muro
Em cima do muro...
Meus heróis
Morreram de overdose
Meus inimigos
Estão no poder
Ideologia!
Eu quero uma pra viver
Ideologia!
Eu quero uma pra viver..
Ideologia!
Pra viver
Ideologia!
Eu quero uma pra viver...


RETRATO DE PERNAMBUCO

                       
JORGE DE SOUZA


Banhado de Pernambuco
eu nunca mais vou secar;
batizei-me nessas águas,
açudes de mungunzá;
vesti-me dos esplendores,
variações multicores
da cultura popular.
Banhado de Pernambuco
não vou despernambucar!

Provei-te, meu Pernambuco,
no paladar da peixada,
carne de sol e cará,
agulha frita e buchada.
Comi das doces compotas
de mulheres tão devotas,
amantes na madrugada.
Provei-te, meu Pernambuco,
em cartola açucarada!

É ceia de Pernambuco?
Tem manteiga e pão assado
com tapioca e cuscuz
sob o leite derramado.
E tem sopa de feijão,
gordo queijo do sertão
- delícia quando tostado.
É ceia de Pernambuco?
Bolo de rolo aerado.

Cozinha de Pernambuco?
Põe galinha a cabidela!
Bota guaiamum no coco,
molho de coentro em tigela!
Põe manteiga de garrafa,
velha cachaça que abafa
das ventas ao pé-da-goela.
Cozinha de Pernambuco?
A macaxeira está nela!

Sinto o gosto, Pernambuco,
do tareco amanteigado
e da bolacha praieira,
feijão de corda e melado.
O sabor do teu cozido,
queijo-coalho, ovo mexido,
pão doce e leite maltado.
Sinto o gosto, Pernambuco,
da charque de refogado.

Tu me sabes, Pernambuco,
a sorvetes de tardinha:
- de mangaba, de caju,
de manga rosa e de pinha;
à delícia da patola,
a carnes de graviola,
a quitutes de mainha.
Tu me sabes, Pernambuco,
a coalhada bem noitinha!

Bebo o vinho, Pernambuco, 
és Canaã nordestina,
com frutos da irrigação,
uva, manga e tangerina;
goiaba, melão, cajá
mais tudo que o Vale dá
pela cultura caprina.
Bebo o vinho, Pernambuco,
das cepas de Petrolina.

Pro faminto Pernambuco,
caso puxe a cachorrinha:
um naco de rapadura,
água fresca da quartinha.
mingau de cachorro engana
junto à palma de banana
se for luxo uma galinha!
Pro faminto Pernambuco
resta a cuia de farinha!

Ouço o canto, Pernambuco,
do rei-baião, teu Gonzaga;
do Zé Dantas, do Bandeira
e outros mais de tua saga
do Riacho do Navio
e do Assum Preto no estio...
Voltei...! Recife desaba!
Ouça o canto, Pernambuco,
dos teus fulniôs na taba!

São os sons de Pernambuco
um xamego sanfonado,
essas rodas de ciranda,
o Quinteto Violado;
evocações de Ferreira,
compassos de saideira
d’um Levino harmonizado.
São os sons de Pernambuco,
velho Lupércio chorado.

Tens de sobra, Pernambuco,
Os talentos musicais
bem no teu frevo presentes
nos tríduos dos carnavais.
Ouves Petrúcio Amorim;
Maciel Melo? Mas,sim!
Dominguinhos e que tais.
Tens de sobra, Pernambuco,
Lenine e Alceu geniais!

Resolvido és Pernambuco,
tuas raças num caldeirão
sem saudades africanas,
virtudes em seleção!
Herdas do negro o suor,
de Portugal seu fervor,
da taba libertação.
Resolvido és Pernambuco
na genética equação!

Eu te leio, Pernambuco,
em Mocambos e Sobrados,
Auto da Compadecida,
apenas dois destacados.
Leio também Carlos Pena,
os Oliveiras da cena,
esse Capiba inspirado.
Eu te leio, Pernambuco,
e sendo Ascenso... encantado.

Tu escreves, Pernambuco,
pelas letras atuais
Villaça, Ewaldo, Carreiro,
Leal, Jomar e outros mais.
Quintas, Nelly, Luzilá,
Accioly e Waldemar
em levezas de hai-kais.
Tu escreves, Pernambuco,
os cantos dos imortais.

Poetas teus, Pernambuco,
filhos do chão de poeira;
mui férteis nos improvisos
os vates - cordéis de feira.
De Mauro Mota os duais,
graves cantos sociais
são Tecelã , Mãe Solteira.
Poetas teus, Pernambuco,
Cabral, Cardozo e Bandeira.

Se queres ir, Pernambuco,
seja então com toda a gente
para a lírica Pasárgada
onde se namora quente.
Apois não tenhas vergonha
da poesia que sonha
diatribes de duende.
Se queres ir, Pernambuco,
vai danado pra Catende!

Tens mais perto um Pernambuco,
mas longe do bem-olhar,
pois quando o vês não enxergas 
as concretudes do ar.
Ah! quem a vida decrua
vagueia na falsa lua
da quinta fase lunar.
Tens mais perto um Pernambuco
e nem o viste dançar!

És dançante, Pernambuco,
por saltitante capeta;
na pancada do ganzá
gira, gira, carrapeta.
Com zabumba mais rabeca
pula a menina sapeca,
singra a Nau Catarineta.
És dançante, Pernambuco,
por armorial Tonheta!

Quando frevas, Pernambuco,
com que passos cais na dança?
Voam tesouras no ar,
proeza pra quem não cansa?
Tramelação no siri
e saltitante saci
são dois modos da frevança.
Quando frevas, Pernambuco,
ah! que trelosa criança!

É dança de Pernambuco
roda de coco gingado,
maracatu do sertão
não é do baque virado.
Caboclinhos de açoiaba
e fuá que não se acaba
em xote, baião , xaxado.
É dança de Pernambuco
Cordel do Fogo Encantado!

Maracatu, Pernambuco,
da Coroa Imperial
canta loas pra calunga
e pros orixás do astral.
É cortejo do rei-congo,
marcação feita no bombo,
sendo urbano... se rural.
Maracatu, Pernambuco,
a pretitude ancestral...

Retrato de Pernambuco?
- os cenários da paixão;
Antônio Menezes, cello;
Geninha, a encenação!
É Brennand, o ceramista,
e Naná percussionista,
Liberalquino, violão!
Retrato de Pernambuco?
- o Vitalino artesão!

Deste ao mundo,Pernambuco,
grandes nomes das ciências: 
Mattos Peixoto, Maurício,
Vasconcelos eminências.
De Leite Lopes, José;
o de Castro, Josué,
e C. de Andrade excelências.
Deste ao mundo, Pernambuco,
as Freyre-Gilbertinências!

São gigantes, Pernambuco,
cada qual no seu estilo,
Agamenon Magalhães
que com Vargas foste ungí-lo.
Álvaro Lins e ademais
o mito Miguel Arraes
mais Borba Filho, o Hermilo!
São gigantes, Pernambuco,
mas dos Coelhos, só Nilo!

Festejo meu Pernambuco, 
tu não vê que nisso posso,
por Dom ser pernambucano
e Ariano ser dos nosso?
Mode Santos deu Pelé,
foi Jesus de Nazaré,
não se nasce só nos osso.
Festejo meu Pernambuco
pois não é que já sou vosso? 

Tenho orgulho, Pernambuco,
do Cassino do Chacrinha;
velho guerreiro buzina;
alô, alô, Terezinha!
De Cícero na pintura,
Samico todo gravura
e do Alex de manhazinha...
Tenho orgulho, Pernambuco,
de tuas artes na linha.

Tua história, Pernambuco,
por teus filhos construída,
teceu o manto da pátria,
foi nesta terra tingida
pelo sangue desses bravos,
os mamelucos... escravos...
ao preço das próprias vidas.
Tua história, Pernambuco,
não pode ser esquecida!

Tu nasceste, Pernambuco,
por teus heróis de combates
como Vidal de Negreiros,
esse primeiro penates.
Parto de negros cativos
de par a índios altivos,
guerreiros de mil quilates.
Tu nasceste, Pernambuco,
no palco dos Guararapes.

Tu tens n’alma, Pernambuco,
um grande horror aos sicários
nos nomes de tua história
por tão imensos e vários.
De Frei Caneca a Nabuco
em tudo teu de mais pulcro
puseste a fé dos templários.
Tu tens n’alma, Pernambuco,
os ideais libertários.

Tu és crente, Pernambuco,
nos gestos de devoção;
são ladainhas,novenas,
pende o rosário da mão.
Rezas missa do vaqueiro
onde o caboclo santeiro
roga ao Divino a benção.
Tu és crente, Pernambuco,
nas graças da Conceição.

Sertão crente, Pernambuco?
Giro em torno do oratório,
Reino de Nossa Senhora
coroada de zimbório!
Tem o coração sagrado,
meu Jesus crucificado,
as novenas no ofertório!
Sertão crente, Pernambuco?
Céu,inferno e purgatório!

Outras crenças, Pernambuco,
( Não as houvera de ter?)
nesse jardim do sagrado 
quanta fé vês florescer?
Terceira Revelação
e igrejas da salvação,
modos distintos de crer!
Outras crenças, Pernambuco,
para ao Divino ascender.

É São João, Pernambuco,
tu te acabas na festança
em cada roça e cidade
onde toda gente dança.
Caruaru, Cabrobó,
xumbregação de forró,
anarriê... contradança.
É São João, Pernambuco,
de milho forras a pança!

Forgança de Pernambuco?
Casamento e batizado,
é dia das eleição,
São João comemorado.
sanfoneiro espicha o fole,
nas dança cabocla bole
já doida com o arrochado.
Forgança de Pernambuco?
A quermesse no arruado!

É culto de Pernambuco
as torcidas com bandeiras
tricolores, alvirrubras,
rubronegras altaneiras.
Ouço o brado de ganhar, 
o cazá-cazá-cazá
na ilha das domingueiras!
É culto de Pernambuco 
a seus deuses de chuteiras!

Futebol de Pernambuco?
Quatro romances de amor!
O primeiro, rubro-negro;
o segundo, tricolor;
O terceiro é alvi-rubro
mas há outro que descubro
ser xodó de torcedor.
Futebol de Pernambuco?
Tem um Ibis perdedor!

Recife por Pernambuco,
carnavalesca cidade,
nas ruas do centro-velho
vai teu Bloco da Saudade.
Madeiras do Rosarinho,
Pitombeira vem mansinho,
quando o Galo canta, invade.
Recife por Pernambuco,
cai no frevo e dorme tarde!

Estão em mim, Pernambuco,
lirismo das fantasias,
as batalhas de confetes,
o corso alegre que vias
das ruas ou das sacadas
com serpentinas roladas
e por exatos três dias!
Estão em mim, Pernambuco,
arrepios...lanças frias.

Saudades d`um Pernambuco
nas noites dos assustados,
com vitrolas em hi-fi,
flirts de rostos colados.
Das sombrinhas, dos espelhos,
certos lances de joelhos,
dos namoros vigiados.
Saudades d`um Pernambuco
de rendas e de plissados.

Quero voltar, Pernambuco,
às palavras empenhadas
pelos fios dos bigodes 
-os avais feitos de nadas.
À água de flor, aos desmaios,
aos chistes de papagaios,
às damas ruborizadas.
Quero voltar, Pernambuco,
aos folguedos nas calçadas!

Tu me falas, Pernambuco,
a linguagem popular
prosodiando cibola,
se caçoas por mangar.
Despertas? jamais...te acordas.
Só tu atacas as cordas
e agarras por encangar.
Tu me falas, Pernambuco,
se sacodes pra acolá!

Na fala de Pernambuco
o catinguento é xexéu;
um cabra chato aperreia,
se muito doce tem mel.
E ante inusitado tema
diz “ é coisa pra cinema!”
fazendo cara de incréu.
Na fala de Pernambuco
matuto dá tabaréu.

Em teu jargão, Pernambuco,
dizes do tolo, abestado.
O que tem pressa, se avia, 
quando aperta é arrochado!
Se perde tempo arrudeia,
o que apanha leva peia
de sair afolozado!
Em teu jargão, Pernambuco,
papudinho tá bicado!...

Nos ditos de Pernambuco
o muito magro é cancão;
quando não paga, xexeiro;
gota serena é o cão!
Um osso duro , capiba.
Tá em cima? tá em riba!
O muito rico é barão!
Nos ditos de Pernambuco
pipoco por explosão!

Ora mas ta, Pernambuco,
onde xilique é pantim
e prum teimoso (peitica)
cabe dizer : coisa ruim!
Quem não cumpre? Farrapeiro.
Só arranca ,samboqueiro;
bicho barbeiro é chupim...
Ora mas ta, Pernambuco,
porque falas, falo assim!

Dizeres de Pernambuco:
quem gosta vive embeiçado;
bota chifre,leva gaia;
na desgraça, tá lascado!
Casa de Noca é lonjura,
comadre faz benzedura
para o menino encruado.
Dizeres de Pernambuco:
- jumento!... cabra safado!

Palavra de Pernambuco
num jeito pernambucado,
com raízes na cultura
de seu remoto passado.
É linguagem quinhentista
onde aperreio dá pista
entre o muito aqui falado.
Palavra de Pernambuco,
dito tropicalizado...

É seca de Pernambuco
quando estorrica o sertão;
secam rios,não os olhos
do caboclo em provação
que contrito pela fé,
roga chuva a São José,
invernosa floração.
É seca de Pernambuco?
- só lhe cabe humilhação!

Sol do sertão, Pernambuco,
fogo nas minhas entranhas.
É força que dá sustança
a quem vive das façanhas:
- noites de amor mais Luzia,
na lida dura do dia
quando o alazão me acompanha.
Sol do sertão, Pernambuco,
tu com chuva não barganhas!

Retirantes, Pernambuco,
não tem as juriti inté?
Quando a macambira morre
os fio, os homi e as muié
carrega nos imborná,
farinha pra alimentá,
nos coração vai a fé.
Retirantes, Pernambuco,
calo nas arma e nos pé!

Nas chuvas de Pernambuco
tem a arenga-de-mulher,
chuva chocha e caninguenta,
um sereno ou xereré!
É pancada ou temporal,
grande toró invernal,
água de dar-com-o-pé!
Nas chuvas de Pernambuco
quem em chuvisco põe fé?

Mal no sertão, Pernambuco,
caboclo avia mezinha,
as águas abençoadas,
pede a reza de mainha.
É mistério da natura,
a preta velha que cura
com seus guias na matinha.
Mal no sertão, Pernambuco,
Pai Nosso e Salve Rainha!

No sertão de Pernambuco
pra lida de desgarrado
não vai cavalo estradeiro
porque é serviço pesado.
É o alazão que se atrela,
com asa em cada canela
para o vaqueiro encourado.
No sertão de Pernambuco
homem é menos que gado!...

Madrugador, Pernambuco,
não tem por nome tetéu?
Pru modi cumprir a sina
canta cedinho no céu.
Antes que o sol escaldante
deixe a friagem distante
põe fim às luas de mel.
Madrugador, Pernambuco,
cantante inté no papel!

Bedegueba em Pernambuco?
- com jeito são as muié!
Quem nas maia das danada
arriseste a cafuné?
Na força manda o patrão,
mas por trás do garanhão
quem drome mais coroné?
Bedegueba em Pernambuco?
Por elas... padre na fé!

Quero esquecer, Pernambuco,
- e não sabes como o quero –
as cruezas de Lampião
que remetem às de Nero
em proporções reduzidas,
mas que deixaram feridas
no teu sangue... qual gaudero.
Quero esquecer, Pernambuco,
esse cangaço tão fero!

Os teus fio, Pernambuco,
nóis chamemo de bruguelo,
mas põe lá nas certidão
Sivirino e Zé Lutero.
E as minina, nossas fia,
é quase tudo Maria,
moda de crente sincero.
Os teus fio, Pernambuco,
quantos chama Ludigero?

Luz no sertão, Pernambuco,
natureza e candieiro;
é o gai na queimação,
sol e lua no terreiro.
Mas tem outra luz,a fé,
na Virge de Nazaré,
no Bom Jesus milagreiro.
Luz no sertão, Pernambuco,
Deus do Céu o tempo inteiro!

Se fuloras, Pernambuco,
buniteza há de se vê,
Tem macaíba e araçá,
tá na mesa o de cumê.
Pitomba, ubaia e juá,
genipapo mais ingá,
umbu no leite a frevê.
Se fuloras, Pernambuco,
o que mais nóis vai querê?

Como viver, Pernambuco,
à margem da proteção ?
Não é direito sagrado
de toda a população?
Que doente...morre cedo,
nas ruas passa com medo,
sem emprego e educação.
Como viver, Pernambuco,
em governo de omissão ?

Vai livrar-te, Pernambuco,
dos que desonram teu nome,
os filhos da desgraçada
elite que te consome!
Não vês, são falsas as urnas
que referendam noturnas
escolhas de sobrenomes?
Vai livrar-te, Pernambuco,
da nódoa de tanta fome!

No moderno Pernambuco
veio o progresso e não mais
jornadas extenuantes
para o cassaco tenaz.
Já não há a fundo perdido
para o usineiro falido
as verbas das estatais...
No moderno Pernambuco
há lei nos canaviais!

Não deixes mais, Pernambuco,
desperta pra nova liça!
Não suporta mais o povo
exalações da carniça
moral, de tantos anões,
bandalhos das comissões
e gigantes na cobiça.
Não deixes mais, Pernambuco,
prosperar tanta injustiça!

Necessitas, Pernambuco,
mudares todo o teu rumo
no trato da coisa pública
com reta de fio-a-prumo.
Acima de tudo as gentes
desvalidas e doentes,
famintas no subconsumo.
Necessitas, Pernambuco,
dares bom destino ao numo!

Prazam os céus, Pernambuco,
que tocados de ideal
sejam teus representantes
no Congresso Nacional...
E no Campo das Princesas
quanto firmado nas mesas
busque sempre o bem geral!
Prazam os Céus, Pernambuco,
vivas na paz social!

Tai vendo tu, Pernambuco,
estendal deste nordeste,
vôte... já posso dizer,
nenhum gota me conteste.
Numa peinha de nada! 
Vixe, que gente vexada!
Eita, seu cabra-da-peste!
Tai vendo tu, Pernambuco,
o que foi que me fizeste?...

Na glosa de Pernambuco
mote bom não vai secar.
Há igrejas e casarios
nessa Olinda secular;
tem feira em Caruarú,
em Bezerros papangú,
tem jangadas pra pescar.
Na glosa de Pernambuco, 
canto gente, terra e mar!

Donde veio, Pernambuco,
este apreço que te tenho?
Não é cultura aprendida,
embora dela tão prenho.
Amei-te sem conhecer-te
e sabendo sem saber-te
esqueci-me de onde venho.
Donde veio, Pernambuco,
a saga que hoje resenho?

É canto de Pernambuco
( cantoria com alarde!)
semeando pelos ventos
sua especificidade.
Melodia de martelos
no ar, nas bocas, nos prelos,
pros velhos, pra mocidade.
É canto de Pernambuco,
só pernambucanidade!

Por mim já sou Pernambuco,
meu novo jeito de ser;
tangido por seu aboio
como gado de tanger.
Crismado de sertanejo,
rendo graças e festejo
um direito de escolher.
Por mim já sou Pernambuco
sem certidão de nascer!



Lixo-Décio Pginatari




Pneumotórax- Manuel Bandeira


Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi,
Tosse, tosse, tosse.
Mandou chamar o médico:
- Diga trinta e três.
- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
- Respire.
..............................................................................
- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo
e o pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino


Vozes d'África-Castro Alves


Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos te mandei meu grito,
Que embalde desde então corre o infinito...
Onde estás, Senhor Deus?...

Qual Prometeu tu me amarraste um dia
Do deserto na rubra penedia
— Infinito: galé! ...
Por abutre — me deste o sol candente,
E a terra de Suez — foi a corrente
Que me ligaste ao pé...

O cavalo estafado do Beduíno
Sob a vergasta tomba ressupino
E morre no areal.
Minha garupa sangra, a dor poreja,
Quando o chicote do simoun dardeja
O teu braço eternal.
Minhas irmãs são belas, são ditosas...
Dorme a Ásia nas sombras voluptuosas
Dos haréns do Sultão.
Ou no dorso dos brancos elefantes

Embala-se coberta de brilhantes
Nas plagas do Hindustão.


Por tenda tem os cimos do Himalaia...
Ganges amoroso beija a praia
Coberta de corais ...
A brisa de Misora o céu inflama;
E ela dorme nos templos do Deus Brama,
— Pagodes colossais...
[...]

APARTHEID?!-

Bertold Brecht


Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei
Agora levam-me a mim
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém

Ninguém se importa comigo.





Cálice-Chico Buarque e Gilberto Gil



Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue
Como beber dessa bebida amarga
Tragar a dor e engolir a labuta?
Mesmo calada a boca resta o peito
Silêncio na cidade não se escuta
De que me vale ser filho da santa?
Melhor seria ser filho da outra
Outra realidade menos morta
Tanta mentira, tanta força bruta
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue
Como é difícil acordar calado
Se na calada da noite eu me dano
Quero lançar um grito desumano
Que é uma maneira de ser escutado
Esse silêncio todo me atordoa
Atordoado eu permaneço atento
Na arquibancada, prá a qualquer momento
Ver emergir o monstro da lagoa
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue
De muito gorda a porca já não anda (Cálice!)
De muito usada a faca já não corta
Como é difícil, Pai, abrir a porta (Cálice!)
Essa palavra presa na garganta
Esse pileque homérico no mundo
De que adianta ter boa vontade?
Mesmo calado o peito resta a cuca
Dos bêbados do centro da cidade
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue
Talvez o mundo não seja pequeno (Cale-se!)
Nem seja a vida um fato consumado (Cale-se!)
Quero inventar o meu próprio pecado (Cale-se!)
Quero morrer do meu próprio veneno (Pai! Cale-se!)
Quero perder de vez tua cabeça! (Cale-se!)
Minha cabeça perder teu juízo. (Cale-se!)
Quero cheirar fumaça de óleo diesel (Cale-se!)
Me embriagar até que alguém me esqueça (Cale-se!)


Rosa de Hiroshima-Vinicius de Moraes


Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas, oh, não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa, sem nada

Holocausto-Jorge Humberto


Por todos os que caíram por terra,
Por causa dessa maldita guerra,
Ficou o pranto infeliz e sem retorno,
Dos que morreram no imenso forno.
À chegada dos comboios a divisão
Se fazia, e a besta sem compaixão,
Levou as pessoas no engano,
Gazeando-as com o rude metano.
Segregação total e sem piedade,
Não se importando com a idade,
Dos que jaziam inertes no chão.
Holocausto previsível do animal,
Não fazendo azo do seu igual
Degenerando na sua contradição.